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terça-feira, 6 de maio de 2014

O perigo mora no aquário

(Resenha originalmente publicada no Boletim do PET/Bio n. 11, março/2010 - ISSN 2237-6372, e já publicada aqui no Blog do Orla em 2011!)


    Você sabe o que Antigo Egito, Império Romano, China e Japão medievais, Europa, EUA e Brasil têm em comum? A resposta que o artigo “Peixes de Aquário: animais de estimação ou pestes” da Ciência Hoje (Dezembro 2009) propõe é o aquarismo, alternativa saudável pra quem tem dificuldade em criar animais domésticos como cachorros ou gatos. No entanto, aquários também exigem cuidados e preocupações. Manter a água limpa, temperatura e pH agradáveis ás espécies, oxigenação e alimentação adequada freqüentes são alguns exemplos.
     Manutenção, crescimento exagerado e agressividade de alguns peixes são motivos que levam aquaristas a desistir dessa prática. E é aí que está o problema: o que fazer com os peixes? Não seria extremamente cruel e desumano matá-los?
     Essa “compaixão” acaba levando a atitudes nocivas para o meio ambiente. Aquaristas que soltam seus animais em rios, lagos e praias podem causar uma alteração no equilíbrio natural do ecossistema. Esses peixinhos se tornam bioinvasores, indo parar em ambientes onde geralmente não há um predador natural, passando a competir por alimento com as populações de peixes nativas, disseminando novos parasitas e podendo se tornar ameaças para banhistas.  Um exemplo trazido pelos autores ocorreu na Flórida, EUA, onde peixes de aquário sul-americanos introduzidos em lagos fizeram buracos nos barrancos, provocando assim uma erosão que avança 4m por ano.
     O artigo trás poucos dados sobre o Brasil, mas algo que vale a pena ser destacado é a dispersão do Guppy, peixe nativo do norte da América do Sul, que chega a ser a espécie mais abundante em lagos do Parque Estadual do Itacolomi e na cidade de Ouro Preto, em Minas Gerais.
     A IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza) afirma que 1/3 das espécies introduzidas mais prejudiciais foram disseminadas devido ao aquarismo. E a presença de espécies exóticas em ambientes naturais é uma das principais causas de perda da biodiversidade do planeta.
     Então o que fazer com os peixinhos? Nesses casos, o sacrifício é sim uma solução aplicável (por congelamento ou sob a orientação de um veterinário). Também há a possibilidade de vender ou de doar seu peixe. Liberar pela descarga? Jamais! Ele vai acabar atingindo um ecossistema aquático do mesmo jeito. Quem solta seu bichinho de estimação no meio natural comete crime ambiental federal previsto na Lei 9.605 de 1998.
     Vamos provar que realmente amamos os peixinhos de aquário dando a eles o destino mais adequado!

               Fonte: MAGALHÃES, A. L. B.; BARBOSA, N. P. U.; JACOBI, C. M. Peixes de Aquário – animais de                          estimação ou pestes? Ciência Hoje, vol. 45, p. 40- 45, dez. 2009.
    
               Resenha por: Andréia de Queiroz dos Santos Abreu Figueiredo

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Navy's Marine Mammal Program: E quando a melhor ferramenta é um animal?

Por: Marco Antônio de Menezes Ferreira
Graduando do curso de Ciências Biológicas-UFMA
Voluntário do Orla Viva - MA

                Em um mundo globalizado onde a tecnologia avança cada vez mais, é de se esperar o dia em que os países vão passar a utilizar robôs no lugar de pessoas para fins militares. O que não é de se esperar é que alguns animais seriam os primeiros a fazer parte dessa realidade. Você deve estar se perguntando: como assim animais? Para entendermos essa questão, primeiramente temos que nos remeter a 1963, quando a Marinha dos Estados Unidos iniciou o Programa de Mamíferos Marinhos da Marinha (Navy's Marine Mammal Program - NMMP) na Califórnia. Tendo em vista as incríveis habilidades de mergulho (hidrodinamismo e fisiologia), de ecolocalização, de marcação e recuperação de objetos e de audição dos mamíferos marinhos, a Marinha dos EUA foi levada a utilizar esses animais em investigações militares, dando início ao programa. Além disso, a descoberta de que eles poderiam ser treinados soltos em mar aberto foi mais um ponto positivo para o projeto. Foram testados vários mamíferos marinhos, porém o golfinho-nariz-de-garrafa (Tursiops truncatus) e o leão-marinho-da-Califórnia (Zalophus californianus) se destacaram devido às suas habilidades de sonar biológico e audição/visão, respectivamente.
Figura 1. Leão-marinho da Califórnia utilizado pelo NMMP

                Os treinamentos tinham como objetivo a proteção de instalações portuárias e de navios contra mergulhadores não autorizados, a detecção e remoção de minas e a recuperação de equipamentos. Os animais são separados em equipes especializadas em determinadas missões. Ao todo são cinco equipes: MK4, MK7 e MK8, formadas por golfinhos e que constituem o Sistema de Mamíferos Marinhos de Caça de Minas, responsáveis por detectar e/ou marcar o local de minas fora do fundo oceânico, detectar e/ou marcar o local de minas no fundo oceânico ou enterradas e identificar corredores seguros para o desembarque inicial de tropas em terra, respectivamente; MK6, que utiliza golfinhos e leões-marinhos como sentinelas para proteger cais, navios, portos e ancoradouros contra veículos, nadadores e mergulhadores não autorizados; e MK5, formada por leões-marinhos constituindo o Sistema de Mamíferos Marinhos de "Localização Rápida" responsável pela recuperação de equipamentos de testes lançados por navios e aviões. 

Figura 2. (esquerda) Leão-marinho da NMMP colocando uma linha de recuperação em uma peça de equipamento de teste durante o treinamento
Figura 3. (direita) Golfinho da NMMP durante treinamento

Desde quando foi criado, o programa foi alvo de críticas, principalmente de ativistas, acerca da controvérsia sobre o tratamento dos animais e das especulações quanto a natureza das missões e do treinamento, sendo isto muito provavelmente devido ao caráter confidencial do programa até a década de 1990. Talvez a crítica mais grave ao programa tenha sido em relação aos rumores acerca do treinamento de golfinhos para missões de ataque contra navios e pessoas, ou seja, a criação de verdadeiros "golfinhos-bomba", o que foi negado veementemente pela Marinha dos EUA. Além disso, a Marinha rebateu as outras críticas alegando que o NMMP cumpre todas as leis federais relativas à proteção e tratamento dos mamíferos marinhos, incluindo a Lei de Proteção de Mamíferos Marinhos e a Lei de Bem-Estar Animal, além de ter uma equipe de veterinários que acompanha constantemente os animais. 

Figura 4. Golfinho da NMMP sob cuidados de veterinários

                Se a Marinha diz a verdade ou não, é difícil de saber, já que, quando se trata de assuntos militares, tudo é possível. Independente disso, segundo o capitão Frank Linkous, chefe do Departamento de Minas de Guerra da Marinha dos Estados Unidos, depois de mais de 50 anos, a Marinha pretende encerrar gradualmente as atividades do NMMP a partir do ano de 2017 e aposentar os mamíferos marinhos participantes do programa. Ela pretende substituí-los pelo robô batizado de Knifefish, um veículo subaquático não tripulado (unmanned underwater vehicle - UUV) em forma de torpedo que mede 7 metros de comprimento. O plano é que ele fique pronto para uso até 2017; o Knifefish terá a capacidade de percorrer os mares por até 16 horas à procura de minas utilizando o sonar para detectá-las.
                Uma questão que podemos levantar é: se o Knifefish UUV utilizará sonar para detectar minas, isso não vai prejudicar os mamíferos marinhos que também utilizam o sonar na comunicação? Esperemos que a Marinha dos EUA esteja se prontificando a estudar isso, até porque o maior impulsionador dessa substituição pode não ser o bem-estar desses animais por si só, mas sim a vantagem de custo. Para missões que exigem longas viagens, os animais são transportados em navios de guerra em compartimentos especiais sempre acompanhados pelos tratadores e pelos veterinários. Além disso, mesmo depois de aposentados, eles precisarão de cuidados para o resto da vida, afinal, eles não são que nem os cães que fazem missões semelhantes, mas em terra, no Afeganistão e no Iraque (sim, o incrível olfato dos cães também os levaram a participar de investigações militares), que, quando aposentados, vão morar com os seus tratadores. Dessa forma, é mais vantajoso, a longo prazo, desenvolver um robô, apesar de a tecnologia robótica não ser 100% eficaz quando comparada às habilidades dos mamíferos marinhos, embora chegue bem perto. 

Figura 5. Knifefish UUV (Unmanned Underwater Vehicle)


                Mas não são só os golfinhos e os leões-marinhos que estão perdendo seu posto. A Marinha dos EUA também está investindo em tecnologias para substituir, ou pelo menos diminuir, a atividade humana na eliminação de bombas perigosas, missões conhecidas como Eliminação de Artilharia Explosiva (Explosive Ordnance Disposal - EOD), lembrando que os mamíferos marinhos não executam esses tipos de missão.
                É muito estranho pensar em golfinhos e leões-marinhos envolvidos em investigações militares, mesmo com toda garantia do NMMP em relação ao bem-estar animal. Quando se fala no uso deles como armas de guerra, o pensamento, além de estranho, torna-se assustador e preocupante. Se o novo projeto vai ser realmente eficaz e não vai trazer prejuízo aos animais marinhos, não sabemos, mas torçamos para que dê certo. Afinal, apesar de supostamente serem bem cuidados, o lugar deles é em liberdade na natureza.

Fonte: WEINBERGER, S. 2012. Robots replace costly US Navy mine-clearance dolphins. Disponível em: <http://www.bbc.com/future/story/20121108-final-dive-for-us-navy-dolphins>. Acesso em: 17/08/13. SPACE AND NAVAL WARFARE SYSTEM CENTER. 1998.  Annotated Bibliography of Publications from the NMMP. Technical document 627. P. v-vii..