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terça-feira, 15 de janeiro de 2013






O mar é um mundo sem esconderijos...


Por: Elias da Costa Araujo Junior
Voluntário da ONG Orla Viva
Graduando em Ciências Biológicas/UFMA



“[...] Mesmo uma ampla distribuição difundida por todo um continente não é capaz de salvaguardar uma população vulnerável.” (Gould. 1993).

O ambiente marinho sem dúvidas é um grande espetáculo da vida, englobando diversidade genética, de espécies e ecológica. Já foram descritas milhares de espécies marinhas agrupadas em vários filos e com uma gama de estratégias adaptativas, desde os peixes “voadores” aos organismos bioluminescentes. No entanto, acredita-se que ainda existam muitas espécies que não são conhecidas e outras que foram extintas antes mesmo de se descobrir a existência, nicho ou suas funções em ecossistemas. No Brasil, por exemplo, supõe-se que apenas 10% da biodiversidade de invertebrados marinhos são conhecidas. Talvez esse déficit nos dados e no entendimento da riqueza de espécies seja decorrente, principalmente, do difícil acesso a certas zonas dos mares e oceanos.
Isso, de fato, é comprovado nos registros que temos hoje a nossa disposição. Organismos de hábito bentônico das regiões de entremarés ou típicos de zonas com pouca profundidade são relativamente os mais conhecidos e catalogados, enquanto que os das zonas afóticas ou abissais, em sua maioria, são no máximo protagonistas em documentários recentes.

Figura 01: Esquema ilustrativo da biodiversidade marinha. 




Talvez este seja o ponto chave de uma questão debatida, comentada e divulgada nas últimas décadas pelos meios de comunicação, - a extinção de espécies marinhas. Sabemos que para preservar é necessário conhecer, certo? Antes de responder essa pergunta, pensemos... será se os ecossistemas aquáticos estão sujeitos a desequilíbrios ecológicos? Os animais que vivem nas águas do mar estão a salvo da destruição de sua espécie pelo homem?  
Esses questionamentos permeiam o campo da ciência há certo tempo. Voltando ao século XIX, podemos perceber que naquela época muito se falava no oceano como um refúgio seguro para os organismos (me refiro aqui às intervenções antrópicas). Lamarck foi otimista ao excluir de suas ideias o desaparecimento de espécies pela ação do homem, com exceção aos animais de grande porte que vivem em terra firme. Hoje, sabemos que a história não funciona bem assim, já que organismos foram extintos e uma proporção considerável encontra-se ameaçada. Tartaruga Marinha, Baleia Jubarte, Leão Marinho... sabe o que esses animais têm em comum? Além de seres espetaculares, todos já foram considerados praticamente extintos, em razão da depredação humana.


Figura 02: Barcos de turistas podem interromper a amamentação dos filhotes de Baleias Jubarte e o repouso das fêmeas (FONTE: Ciência Hoje).



 Um recente estudo realizado pelo Greenpeace evidenciou que entre os animais marinhos comercializáveis, aproximadamente 80% corre o risco de ter como destino à extinção. O mais preocupante é que os danos podem ser incalculáveis, como um intenso desequilíbrio no ecossistema, principalmente se uma espécie chave for extinta. Os números são assustadores porque muitos organismos possuem uma baixa distribuição ou até mesmo àqueles com uma ampla distribuição estão ameaçados (vide epígrafe).
         Quem não lembra do vazamento de petróleo no Golfo do México? Esse desastre ambiental, por exemplo, afetou a dinâmica de populações de diversos animais como os cetáceos e tartarugas. No entanto, esse evento colocou em risco outros animais espetaculares característicos das regiões afetadas, como o Hippocampus zosterae, conhecido popularmente como cavalo-marinho-anão. Segundo informações da Project Seahorse, a espécie foi ameaçada de extinção porque o derramamento do petróleo ocorreu durante o período reprodutivo desses animais e estes são típicos das águas da costa do Golfo, além de terem como hábitat as zonas próximas à superfície do oceano. Embora o problema tenha sido sanado parcialmente, alguns especialistas calculam que outros efeitos serão notados nos próximos anos.

Figura 03: Cavalo-marinho-anão: vulnerável por seu pequeno tamanho, hábitat limitado, dificuldade para migrar e baixa natalidade. (FONTE: Scientific American Brasil).
  Outro episódio recentemente divulgado sobre essa problemática refere-se à famosa Barreira de Corais da Austrália. Pesquisas alarmaram que houve uma perda de mais da metade dos corais em apenas três décadas, em decorrência de fatores como tempestades, depredação e mudanças climáticas. E como diz o velho ditado: “Antes tarde do que nunca”, a Austrália tem hoje uma rede de reservas marinhas que protege mais de 2,3 milhões de km² de oceano ao redor do país, o que é considerado hoje como o maior sistema de proteção do mundo.

Figura 04: Coral encontrado na Grande Barreira, localizado no litoral da Austrália (FONTE: G1 Natureza, 2012)

  Já passou da hora de assumir como fato o risco que as nossas ações podem oferecer à biodiversidade do planeta. O aumento populacional, a pesca insustentável, redução dos recursos hídricos, invasão biológica e demais impactos ambientais podem ser cruciais no processo de desaparecimento das espécies. Muitas pessoas nem sequer conhecem os magníficos seres que habitam nossos mares e, por isso, não possuem a sensibilização quanto à conservação. Conferências, debates e a utilização de atividades de Educação Ambiental, como, por exemplo, a implantação de ONG’s, podem ascender uma luz em meio a tanta devastação. É preciso sim falar, mais acima de tudo agir. Viver em harmonia com a natureza, talvez seja o grande desafio de uma sociedade em repleta expansão, o que se torna uma tarefa difícil, mas não impossível, - basta querer. Isso remonta a um trecho de uma canção brasileira:

“Havia tanto pra lhe mostrar

Era tão belo
Mas olhe agora o estrago em que está...

Sujamos rios, dependemos das águas

Tanto faz os meios violentos [....]

Cores, tantas cores

Tais belezas
Foram-se!



Com isso, a reflexão que fica é: pequenas ações podem fazer a diferença para o bem ou para o mal. Então, de qual lado você vai querer ficar?





      

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012





Insetos marinhos e sua ocupação

Por: Luciano Chaves
Voluntário do Orla Viva - MA
Graduando no curso de Ciências Biológicas-UFMA



A classe dos insetos é constituída por cerca de 75% de todas as espécies animais descritas, possuindo assim uma enorme variedade de formas, cores e adaptações ecológicas que excedem qualquer outro grupo animal - adaptações essas que promoveram sua ocupação em praticamente todo lugar do planeta (sendo assim cosmopolita), um sucesso evolutivo bem notável. Entretanto, os insetos parecem ter “falhado” na ocupação dos mares e oceanos. 

Apenas 3% desse grupo, o que equivale a cerca de 30.000 espécies, são aquáticos ou possuem larvas aquáticas, porém, acredita-se que apenas algumas centenas de espécies de insetos ocuparam o ambiente marinho, como alguns representantes de Collembola, Thysanura e os Hemiptera (halobates). Mas, consideram-se apenas as espécies que ficam submersas em marés do supra litoral.
Tendo em vista toda a variedade de insetos que existe no planeta, parece impressionante que tão poucos deste grupo tenham se adaptado ao ambiente marinho. O entendimento de um baixo número de espécies em dada região\ambiente, só pode ser explicado através da sua história evolutiva.
Os primeiros artrópodes dotados de asas surgiram no período Devoniano há cerca de 400 milhões de anos atrás, período no qual foi caracterizado pela conquista do ambiente terrestre pelos vertebrados e artrópodes. Neste período da história, os crustáceos já dominavam o ambiente marinho e os insetos acabaram por conquistar a terra firme por falta de competidores. Assim, explica-se o por quê de os insetos não serem marinhos nos primórdios, no entanto, depois eles poderiam ter retornado e conquistado outros nichos. 
Contudo, depois de uma adaptação à vida terrestre tão acentuada, para que os insetos pudessem ocupar o ambiente marinho novamente, necessitariam passar por diferentes obstáculos físicos, químicos e biológicos.
Hemipteros

A primeira limitação foi o seu sistema respiratório, que, baseado em canais espalhados pelo corpo pelo qual o ar entra e sai, não permite que esses animais vivessem em profundidades muito altas, uma vez que eles necessitam do gás oxigênio. No entanto, existem insetos de água doce que possuem estratégias próprias de sobrevivência e que poderiam ser aplicados ao ambiente marinho.
Halobates micans

 Outra explicação seria que esses animais não poderiam usar duas de suas melhores adaptações: o voo e a capacidade de polinização. Como não há presença de flores, cuja associação com os insetos é bem restrita, explicaria o sucesso evolutivo de ambos os grupos e assim a ausência dos mesmos neste ambiente.
Uma última explicação seria a ação de predadores (que não seriam poucos). Grupos que evoluíram concomitantemente com os predadores, como os crustáceos e aracnídeos, teriam estratégias para evitar a predação enquanto insetos, recém-chegados ao ambiente seriam predados rapidamente.
As discussões sobre a não ocupação dos insetos no ambiente marinho continuam no meio cientifico, porém ainda é um assunto controvertido e ainda pode estar longe de ser esclarecida.


sábado, 1 de dezembro de 2012



Peixes-voadores



Por Rafael Lima
Voluntário da ONG Orla Viva
Graduando de Ciências Biológicas/UFMA


“Para seres que vivem em mar aberto, não há como se esconder dos predadores”. Logo, a menos que você tenha muita sorte, suas chances de sobreviver a um encontro mortal normalmente se resumem a uma única palavra: fugir. Sair nadando em altas velocidades, escapar usando jatos de tinta preta que turvam o ambiente, esquivar-se unido a um grupo de semelhantes... seres que vivem em ambientes abertos como os oceanos precisam desenvolver as melhores estratégias para sua sobrevivência e assim, quem sabe, passar seus genes adiante. Mas vamos concordar: se o problema está na água, por que continuar lá? Por que não sair dela?




            Os peixes da família Exocoetidae, também conhecidos como “peixes voadores”, adquiriram a capacidade de saltar do ambiente aquático para fora dele, e, uma vez fora, planar sobre a superfície da água. Tal estratégia adaptativa para anti-predação mostrou-se eficaz ao longo do tempo, existindo hoje mais de 40 espécies distribuídas em todos os principais oceanos (preferencialmente nas águas mais quentes).
            A ação ocorre da seguinte forma: quando sentem-se ameaçados, os peixes voadores passam a nadar rapidamente e compulsivamente em grandes cardumes para a escaparem da predação. Mas, se eles conseguirem atingir certa velocidade dentro d’água e seus predadores (como o atum e o marlin) ainda não tiverem ido embora, eis que começa o espetáculo: com sua forma aerodinâmica de um torpedo e a força de sua nadadeira caudal, o peixe é capaz de disparar em direção à superfície, e sair da água. Nesse momento, eles abrem suas nadadeiras peitorais e batem suas caudas velozmente (cerca de 40 vezes por segundo) sobre a linha d’água para obter subsídio suficiente e, finalmente, planar. Dados sugerem que esses peixes são capazes de pairar sobre a água por mais de 40 segundos, cobrindo uma área de 200 a 400 metros.

Espécie de peixe-voador
                                                


            Segundo a literatura, tais peixes sempre atraíram a atenção dos homens, mas foi só a partir de Linnaeus, em 1758, que foram iniciados os estudos científicos visando estes animais. A natureza e a mecânica de seus vôos, a função e a curiosidade foram os principais motivadores das pesquisas, que, inclusive, foram direcionadas no período entre 1900 e a 2ª Guerra Mundial para a ciência da aerodinâmica, buscando aumentar a eficiência de aeronaves (por exemplo: Shoulejkin, 1929). Mais tarde, já no século XX, os estudos se voltaram para biomecânica comparada entre os vôos de aves, morcegos e insetos.