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sexta-feira, 22 de junho de 2012

Tubarões e raias em cativeiro como recurso de pesquisa e educação


Por : Marco Antônio de Menezes Ferreira
(Aluno do 5º período de Ciências Biológicas e voluntário do Orla Viva - MA)
         

Um bom programa para se fazer em família é visitar jardins zoológicos e aquários. Como de praxe, quanto maior e mais feroz o animal, maior o interesse do público. É nesse cenário que, nos últimos anos, o número de cativeiros, especificamente de elasmobrânquios, tem crescido de forma a intensificar a captura desses animais. Um exemplo disso é o caso dos tubarões e das raias, que despertam grande procura por parte dos empreendedores. A questão é: será que esses animais têm sido mantidos em condições adequadas de manejo?


Os cativeiros modernos devem promover a conservação da natureza, e é nesse âmbito que as técnicas para a manutenção em cativeiro desses animais vêm se especializando cada vez mais, possibilitando não só a exposição ao público, mas também a pesquisa em relação à biologia e ao comportamento desses animais.

O grande fascínio pelos tubarões e raias acabou por intensificar a captura, muitas vezes desenfreada, desses animais e, consequentemente, aumentou a preocupação acerca do manejo dos mesmos em cativeiro. Com isso, criou-se em 1989, o Censo Sul-americano de Elasmobrânquios em Cativeiro, vinculado ao “The American Elasmobranch Society – International Captive Elasmobranch Census”, proporcionando informações detalhadas do processo de manutenção desses peixes.

A problemática está na dificuldade do aprimoramento das técnicas de manejo em acompanhar a expansão de empreendimentos que visem à exposição pública. Isso acontece devido à falta de uma regulamentação para a captura, transporte e manutenção em cativeiro no Brasil, diferentemente de outros grupos de animais como os cetáceos, por exemplo. Além disso, atualmente não existe uma fiscalização específica que controle o manejo de tubarões e raias em centros de pesquisa e setores públicos e privados voltados à exposição. Há apenas leis federais que podem dar subsídio (lembrando que é necessário que haja uma fiscalização eficiente), mas não são específicas para esses animais


O resultado da falta de fiscalização das leis existentes e da carência de leis específicas acaba por alimentar o comércio de peixes ornamentais em estabelecimentos e residências, a exemplo do tubarão-listrado (Chiloscyllium punctatum) e do cação-lixa (Ginglymostoma cirratum). Problema maior ainda é o comércio de peixes do nosso litoral, pois estes são vendidos jovens e com poucas chances de sobrevivência. Devemos atribuir a importância merecida dos tubarões e raias para o ambiente e encarar a sua criação em cativeiro como uma fonte de educação para o público e de informações para os pesquisadores. Os tubarões e as raias, assim como qualquer outro animal em cativeiro, não são simplesmente “máquinas de fazer dinheiro” para os empreendedores e qualquer outro setor, seja ele público ou privado, que trabalhe com a ideia oposta deve ser repudiado.

BASEADO EM: Gonzalez, M. M. B. 2006. Censo sul-americano de elasmobrânquios em cativeiro: tubarões e raias como recursos para pesquisa e educação. Pan-American Journal of Aquatic Sciences, 1 (1): 11-19.

domingo, 20 de maio de 2012

As diferentes análises para um espetacular caso de especiação: o caso dos ciclídeos africanos


Baseado no artigo “adaptive evolution and explosive speciation: the cichlid fish model” e no livro A grande história da evolução: na trilha dos nossos ancestrais (p. 396-405)


Por: Lucas Pereira Martins
(Aluno do 5º período de Ciências Biológicas e voluntário do Orla Viva - MA)




Quando nos aprofundamos no estudo de especiação e padrões de diversidade, é possível notar um exemplo comum a várias abordagens: as diversas espécies de ciclídeos africanos (peixes da família Cichlidae) do Lago Vitória, cuja especiação se deu com grande rapidez nos últimos milhares de anos, já que há indícios de que o lago secou totalmente cerca de 15 mil anos atrás.

 Este fato torna-se bem mais interessante do que simplesmente aparenta - os ciclídeos africanos são um dos grupos que mais rapidamente se especiaram, e os mecanismos que levaram a este altíssimo padrão de diversificação são ainda muito discutidos - eis a razão pela qual o exemplo dos ciclídeos africanos estar quase sempre presente em análises para uma boa compreensão dos processos de especiação.

Os ciclídeos representam a família de vertebrados mais rica em espécies dentre os vertebrados (cerca de 3000 espécies). Dentre estas, há cerca de 450 espécies endêmicas de ciclídeos do Lago Vitória. Estas espécies muito provavelmente se especiaram em um padrão de aproximadamente um ou alguns milênios de intervalo médio entre os eventos de especiação em qualquer dada linhagem, o que representa uma evolução espetacular, demonstrada através da enorme variedade de fenótipos e comportamentos dos ciclídeos deste lago.

 Acredita-se que uma espécie fundadora (ou bem poucas) entrou em cada um dos grandes lagos africanos (Vitória, Tanganica e Malauí) e a partir desse pequeno começo houveram sucessivas subdivisões evolutivas, caracterizando uma irradiação adaptativa.

Há alguns indícios de especiação simpátrica entre os ciclídeos africanos, porém o modelo de isolamento geográfico é ainda dominante para diversos autores. Além disso, a seleção sexual também tem sido reconhecida como uma força poderosa para a origem de novas espécies de ciclídeos. Para algumas pessoas é difícil compreender o fato de uma especiação por isolamento geográfico (alopátrica) ser fundamental em habitats aquáticos (mais até do que para alguns seres vivos terrestres). Porém, os ciclídeos demonstram o contrário: especiações alopátricas podem sim ocorrer em ambientes aquáticos, e até com uma frequência razoável. Do ponto de vista de um peixe, há diversas “ilhotas” dentro de um grande lago, e neste caso específico, os três grandes lagos africanos possuem recifes isolados (não recifes de coral, mas no sentido de cadeia de rochas) e , para um ciclídeo, cada recife pode muito bem ser uma “ilha”, separada por águas profundas do recife vizinho, a uma distância sufiente para consistir em uma barreira ao fluxo gênico.

Esquema representando a diversificação de ciclídeos dos lagos africanos. A primeira etapa constitui uma especialização a diferentes habitáts e modos de vida (como por exemplo rochas ou areia). A segunda etapa constitui na diversificação de estruturas bucais dependendo do habitat. A terceira etapa constitui na diversificação das cores dos machos de diferentes espécies (seleção sexual).

Pelo menos 3 outras forças evolutivas podem ter contribuído para a divergência dos ciclídeos: seleção ecológica, seleção sexual e conflitos genéticos. Há diversas hipóteses em que estas forças são analisadas para explicar a grande diversidade dos ciclídeos, sendo que várias delas possuem um corpo teórico satisfatório.

 Perante isto é possível fazer uma análise em que a especiação de ciclídeos nos grandes Lagos africanos se deve provavelmente a uma soma de fatores. Autores que possuem uma maior tendência a credenciar a especiação simpátrica ou a alopátrica como os “carros-chefe” geralmente não excluem a possibilidade de que outros tipos de especiação também se fizeram presentes.

 Particularmente acredito que a especiação alopátrica é um fator importante na explicação deste fenômeno, porém sem nunca excluir a especiação simpátrica e a seleção sexual do processo. Assim como praticamente tudo na Biologia, o real é bem mais complexo do que o imaginado, com um conjunto de combinações e processos que fazem o mundo como ele é, inclusive em caso tão extraordinários de evolução, como é o caso dos ciclídeos dos lagos africanos.




domingo, 15 de abril de 2012

Que Tal Nadar com 8 Milhões de Águas-Vivas?

Por: José Uilian Silva
(Acadêmico do 3º Período de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Maranhão e Voluntário do Orla Viva - MA)

Quem em seu juízo perfeito teria coragem de mergulhar em local infestado de águas-vivas? Mas, ao contrário de outros lugares onde há ataques de águas-vivas e outros cnidários (inclusive no Brasil), no lago Jellyfish, localizado no Pacífico, num grupo de ilhas também conhecidas com Micronésia, turistas e moradores da região têm o privilégio de nadar com águas-vivas e não sofrer ataques. O local é de fácil acesso, possuindo uma trilha a partir da praia, e logo se transformou em um ponto turístico. As águas-vivas tornaram-se inofensivas ao homem e os demais animais com o passar dos anos, num fascinante processo que veremos mais adiante.

O fotógrafo Kevin Davidson, dono de uma loja no arquipélago de Palau, registrou este lago infestado de águas-vivas. O arquipélago possui uma superfície de 458 quilômetros quadrados e 1.519 quilômetros costeiros.
No âmbito histórico, esse arquipélago foi descoberto no século XVI por exploradores espanhóis. Mais tarde, no século XIX, foi dominado pelos alemães e, posteriormente, pelo Japão. Só a partir de 1947, quando os Estados Unidos da América constituíram uma administração fiduciária (que pertence por confiança ou herança), Palau conseguiu uma “semi-independêcia”, já na década de 80.

Localização no Mapa Mundi da república de Palau.
O lago Jellyfish era antigamente ligado ao Oceano Pacífico, mas, quando o nível do mar baixou, ocorreu o isolamento do lago, e as águas-vivas - assim como os demais habitantes do lago - ficaram presas no local por uma barreira de rochas. Sem risco de predadores e num ambiente rico em nutrientes, principalmente algas, a população de água-viva cresceu bastante e atingiu cerca de milhões de indivíduos no lago. A ausência de predadores foi importante para o sucesso da população no lago e logo a características dos nematocistos funcionais foram perdidos.

Na falta de alimento, as águas-vivas foram associando-se a algas zooxantelas - que fazem fotossíntese e produzem seu próprio alimento. A água-viva será então a fornecedora da "carona" em direção ao sol para as algas, passando a produzir uma enzima que permitia aproveitar o alimento que a alga fotossintetizava.
Imagem mostrando a beleza de uma água-viva no lago marinho de Palau (Foto: Kevin Davidson/Caters)
Jellyfish é o único lago marinho de Palau aberto ao turismo. Localizado na ilha de Eil Malk. (Foto: Kevin Davidson/Caters)
As águas-vivas também conhecidas como medusas são pertencente à classe Scyphozoa ou cifozoários, filo Cnidaria (do grego “Knide”, significa “urtiga”). Os cnidários caracterizam por terem células urticantes denominadas de cnidócitos (onde o veneno desses animais está alojado e é liberado sob forma de defesa) e por serem relacionados a muitos problemas de ataques desses organismos, que, quando em contato com a pele humana, traz lesões na epiderme que lembram “queimaduras”. Essas lesões variam de vermelhidões, bolhas ou até mesmo feridas (apesar de serem formas raras de lesões).

No Brasil, os acidentes com seres humanos são devido a algumas espécies de cnidários, como as águas-vivas Chiropsalmus quadrumanus; cubozoários Tamoya haplonemapor, além das caravelas Physalia physalis. Esses acidentes são considerados geralmente não perigosos à vida do homem. Contudo, há relatos de, em alguns casos, ocorrerem problemas neurológicos, cardíacos e cutâneos ou até mesmo a morte do indivíduo. Casos extremos dependem da quantidade de nematocistos descarregados, da capacidade de penetrar na pele, da idade e saúde da vitima, além da existirem diferenças quanto às espécies.

No caso do lago Jellyfish, a perda da função dos nematocistos das águas-vivas locais tornou-as inofensivas a nós, sendo possível até mesmo tocar em seus tentáculos com as mãos nuas sem sofrer nenhuma consequência - algo impensável em qualquer outro lugar.

Segundo o fotógrafo que frequenta o local há mais de 15 anos, as pessoas que tem medo entram em pânico quando olham a quantidade de águas-vivas e não entram no lago. Ainda segundo o fotografo, os turistas podem sentir centenas de leves toques na pele enquanto nadam com as águas-vivas. (Foto: Kevin Davidson/Caters)

Diante de tanta beleza que esse grupo de animais possui e da pouca atenção aos acidentes ocasionados por esses organismos marinhos no litoral brasileiro, é notável e possível que haja uma boa relação ecológica do homem com a natureza, sendo o exemplo do lago marinho de Palau demonstrar o quanto é importante à conservação e o respeito aos seres vivo que nos rodeia.



FONTES: BBC Brasil. Nadando com águas-vivas. Março de 2012. Disponível em: . Acesso em: 24 mar. 2012.

WEBER, George. The Palau Pymiens. Disponível em: . Acesso em: 24 mar. 2012.


LEVES, Ricardo; AMARAL, Fernanda D.; STEINER, Andrea Q. Levantamento de registros dos acidentes com cnidários em algumas praias do litoral de Pernambuco (Brasil). Ciência & Saúde Coletiva. Pós-graduaçao em Ensino das Ciências, Recife, v.12 , n.1, 231-237, 2007. Disponível em: . Acesso em: 24 mar. 2012.